terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Livros - Parte II - Livro Novo (Proust)

Livros



Quando eu era pequeno e pedia às pessoas daqui de casa que lessem pra mim uma coleção de livros infantis de contos de fadas todos faziam cara feia e davam logo um jeito de se safar da tarefa. Mas depois que eu aprendi a ler tive preguiça de pegar essa mesma coleção, pois acho que já estava enjoado das figuras. Quando fiquei mais velho, a série vaga-lume me era até interessante e cheguei a pegar 3 volumes da biblioteca da escola por vontade própria. Infelizmente, até os meus 16 anos eu não lia praticamente nada que não fossem os “livros-chatos-que-os-professores-de-ensino-fundamental-e-médio-exigem”. O que fazíamos com eles? Resumos, claro, ou então um teatrinho ordinário “porque senão você não ganhará pontos e será reprovado”. Todo esse tempo perdido é irrecuperável, mas eu tenho aprendido a não cobrá-lo de mim mesmo porque eu ainda não havia descoberto o sabor que tinha a leitura, nem a importância para o pensamento, nem para a formação de um olhar mais sensível a objetos, pessoas e acontecimentos.


A obrigação de ler para passar de ano se reveste numa capa dourada de discurso pedagógico, mas ao invés de ser um incentivo, é uma mutilação do prazer pela leitura. Apesar de todos já sabermos disso, o exemplo que eu vou dar agora ninguém nunca ouviu porque aconteceu aqui em casa. É que eu conversava com minha sobrinha de 5 anos e perguntei se ela gostava de ler. Ela disse que não, porque quando ela errava a pronúncia do “b + a = ba” na escola, a professora tirava pontos. Pronto. Apesar da diferença de idade entre nós, parece que pouco se evoluiu em questões didáticas (pelo menos quando se trata de aplicação da teoria). Agora, a parte engraçada: Eu, querendo ser solícito, peguei um livrinho da história do Peter Pan para tentar mostrar a ela como pode ser interessante ler. Chegando ao final, quando o protagonista consegue derrotar os intrusos da ilha, o narrador relata: “O nosso vencedor voltou ao bosque, pegou uma corda e amarrou os piratas”. Eis que eu perguntei à minha sobrinha quem era “O nosso vencedor” e ela responde que é “Jesus”. Rsrs. Depois eu trouxe pra ela ver a mesma coleção de histórias de quando eu era pequeno e li um dos livros para ela. No dia seguinte – a pedido dela – tive de ler todos!!!




De volta à minha história, eu só comecei a ler por deliberação e prazer a partir dos 17 anos, quando descobri que “O Senhor dos Anéis” era, na verdade, a adaptação cinematográfica de uma obra literária. Eu fiquei muito empolgado e resolvi comprar o primeiro livro da trilogia: “A sociedade do Anel”. Data de 07.01.2004, portanto, o primeiro livro que eu comprei por vontade própria. Eu passava horas olhando os mínimos detalhes da ilustração da capa, da contracapa, da lombada, e o economizava, lendo poucas páginas ao dia, por medo de que acabasse tão depressa aquela emoção trazida pela história, mesmo sabendo que, se eu juntasse os outros dois volumes – “As Duas Torres” e “O Retorno do Rei”, os quais eu compraria prontamente em poucos dias – o montante de páginas chegaria a 1200, e que com uma quantidade dessas não havia motivos para economia.

Depois disso vieram os outros livros do mesmo autor: “O Hobbit”, “O Silmarillion”, “Contos Inacabados”, seguidos das aventuras púberes e mágicas de Harry Potter, e após essa introdução aventuresca e fantástica, o início de coisas levemente mais cabeçudas, como o existencialismo erótico dos vampiros de Anne Rice, o wit de uma égua vitoriana chamada Oscar Wilde, Machado de Assis, que eu ainda não entendia a genialidade, o pedantismo (haha) da nada simples Nélida Piñon, e outras tantas coisas interessantes que trouxeram epifanias e eurekas ainda não imaginadas. (Clique Aqui e poderá vê-las).




A faculdade de Letras também me trouxe experiências e pessoas incríveis, com as quais pude compartilhar leituras – não tantas quantas eu queria, infelizmente – e conhecer autores que, certamente, não conceberia a existência. Passei a ver a literatura nacional com olhos respeitosos e de admiração pela rica produção  que antes eu desdenhava – admito! – por ainda ser um moleque insolente com pentelhos nascendo aqui e ali, e só saber reproduzir o discurso de ódio que o brasileiro tem pelo Brasil. (Essa serve pra você mesmo, que ainda acha que só o que vem de fora é bom, seu tapado!!!)

Hoje eu compro livros compulsivamente, mais do que consigo ler, tenho um cuidado obsessivo com alguns e pequenos prazeres com o objeto em si. A exemplo, gosto de sentir quando o peso do livro se transfere da mão direita para a esquerda na medida em que avançamos na história e, saindo do início, chegamos às páginas finais. Também acho visualmente mais bonitos os livros grossos, que passam das 400 páginas. Na estante eles se destacam e o olho enche de água de vontade de ler – em comparação com a boca com vontade de comer –, mesmo que eu não os leia imediatamente. Gosto de rearranjá-los na estante de vez em quando, pelo prazer de manuseá-los, olhar as capas, relembrar as histórias dos que eu já li, e imaginar as que ainda virão, nas próximas leituras. Gosto quando um livro chega pelo correio, a aflição causada pela caixa, notas fiscais, isopores ou plástico bolha que impedem de ver logo a capa, de cheirá-lo e tateá-lo, de folhear as páginas. Gosto, em especial, do primeiro parágrafo, ou das primeiras linhas de um livro, porque tudo é novo e não parece que vai ser ruim, e às vezes até leio em voz alta.




Mas acreditem ou não, esse texto todo foi escrito para chegar aqui: Depois de muito tempo olhando preços e esperando que eles abaixassem, e depois de ouvir tanta gente que eu admiro falando bem e indicando, chegou aqui em casa para mim um exemplar de “Em Busca do Tempo Perdido – Vol. I – No Caminho de Swann”, do Marcel Proust (ituto). Fiquei muito feliz! A arte da capa é muito bonita e as fotografias que a ilustram foram retiradas do site Getty Images. E eu acho que a cor (azul) combina muito com o conteúdo do que eu li até agora. O livro tem exatas 558 páginas. Essa edição conta com nova revisão, um prefácio ótimo, cronologia do autor, várias notas explicativas de rodapé – que por vezes revelam pequenos trechos da história, o que me deixa meio chateado, haha –, um resumo do volume, ao final , e um posfácio, que ainda não li e não posso dizer se é bom. Na contracapa há um trecho escrito pelo André Gide, que resenhou a obra do Proust.

Lembro-me que um professor disse, certa vez, que era um preconceito essa insistência em achar que só o texto na língua original era bom. E eu concordei porque por mais que se tenha um conhecimento bom em uma língua estrangeira, é indiscutível que se tem maior domínio da materna. E uma tradução boa nos dá mais acesso ao texto original do que uma tentativa de leitura na língua em que uma obra foi originalmente escrita. A tradução dos quatro primeiros volumes de Em Busca do Tempo Perdido é respeitada e confiável por ser de um poeta brasileiro: Mário Quintana. Há quem não goste da poesia dele. Eu nada digo porque mal conheço. Mas a habilidade de um poeta com as palavras e a sensibilidade com a linguagem é inegável. Dois dos três volumes póstumos foram traduzidos por nada menos que Drummond e Bandeira.




Sobre o conteúdo eu ouso falar pouco, mas o pouco que eu vou falar acho que já vai ser muito, porque não li mais do que 1/5 do livro ainda. Aconteceu de eu querer parar de ler quando estava no começo, porque eu percebi que eu estava prestes a conhecer uma das escritas mais bonitas a que já tive acesso, e se continuasse, ela se esgotaria. Uma certeza é a de que tudo, mas exata e intransigivelmente tudo o que eu ler depois dessa obra, há de se subjugar, inevitavelmente, a essa forma única de organização narrativa e de escolha dos momentos mais oportunos para fazer brotarem as perfeitas palavras na (e da) página.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Livros - Parte I - Presentes



Eu sempre fugi do envelhecimento, mas no ano de 2010 eu resolvi fazer diferente: dei mais atenção aos aniversários dos outros e tentei aceitar o meu como algo bom e alegre. Fiz questão de parabenizar pessoas que mal conversava por internet, amigos que há muito não via, pessoas consideradas só colegas, tudo sem me preocupar em receber quando fosse a minha vez. No meu aniversário, não evitei telefonemas, como costumava fazer. Pelo contrário, atendi a quem me ligou e fiquei feliz pelos parabéns recebidos. Dei o máximo de presentes que pude e que quis, e recebi uma quantidade que nunca tinha recebido antes. Eu, que quando comecei a gostar de livros reclamava de nunca ganhá-los, tanto deles falei para as pessoas, e tanto encontrei amigos virtuais interessados neles, que nos últimos tempos, livros foram os presentes que eu mais ganhei. 

- De Belém do Pará, chegou para mim A História de Amor de Fernando e Isaura + uma carta.


- De uma amiga e colega de faculdade, A Legião Estrangeira e A Descoberta do Mundo + um marcador de página feito por ela mesma.



- De minha irmã, que me presenteou com dinheiro, eu ganhei (à minha escolha) No Caminho de Swann e Confissões de uma Máscara.


- De meu irmão, um par de tênis e À Sombra das Raparigas em Flor (à minha escolha);

- De uma amiga, a qual já me presenteou com um livro religioso e muito bom na época em que li, além de um anel que uso e é bonito demais, ganhei uma calça jeans.

- De outra amiga, um perfume Acqua Brasilis.

- No meu aniversário, em 2007, eu recebi, direto de Fortaleza, “A Insustentável Leveza do Ser” e “Crime e Castigo” + um cartão postal e dedicatórias bonitas dentro dos livros.


- Em fevereiro de 2008, uma colega de faculdade e amiga me deu “O Diário de um Mago” e “As Valkírias”.

- No mesmo ano, uma pessoa muito querida e amiga me presenteou com “O velho e o Mar” e “Entre os Atos” no meu aniversário. Esta mesma pessoa, em outras ocasiões, ainda me deu vários outros livros: Um com os poemas do Machado de Assis (tudo bem que foi porque não se interessava, mas me deu!); Souvenirs de Berlin Est (tudo bem que foi porque já tinha um igual, mas poderia ter dado a outra pessoa!); um que traz artigos sobre Modernismo (tudo bem que é porque tinha, novamente, dois exemplares, mas resolveu que daria a mim!); O Lobo da Estepe (tudo bem que é porque leu e não gostou, mas poderia ter jogado fora, só que me presenteou).



Eu, por minha vez, dei de presente:

- Um bauzinho com 4 livros de contos de fadas;

- Um kit de creme hidratante de ameixa + sabonete de ameixa;

- Uma camisa verde lisa + uma camisa de botão manga curta listrada;

- Livro: Perto do Coração Selvagem;

- Livro: Perdas e Ganhos + Carta + 2 DVDs com vários filmes gravados;

- Livro: n.d.a. (do Arnaldo Antunes) + Carta;

- Carta;

- Um blog (é! Dei um blog de memórias de presente. Pena que tudo deu tão errado, e eu me arrependi);

- Filme: O Fabuloso Destino de Amélie Poulain + Carta;

- Uma barra pequena de chocolate branco (Talento);

- Cesta com chocolates;

- Filme: My Fair Lady;

- CD: Andarilho, do Flávio Venturini.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Sobre como ser





Agnus Dei, qui tollis pecata mundi, tende piedade de nós... e dai-nos a paz… a paz… a paz ...   “Toda vez que saio me preparo pra talvez te veeeeer”    Catulo, não fosse ele brasileiro, teria a fama de Jacques Brel?    Vocês também se arrependem com frequência do que publicam online (se o fazem) ?    "Deveria ser, como - como ter uma grande esmeralda-esmeralda-esmeralda num estojo aberto. Intocável."    Para o outono a folha: Exclusão / Para todas as coisas: Dicionário / Para que fiquem prontas: Paciência / Para quem não acorda: Balde / Para o beijo da moça: Paladar / Para os dias de folga: Namorado / Para você o que você gosta ... Diariamente.    Sonhei com magia, tortura, mutilação e necrofilia. Julguem-me.    Cortei o dedo anelar – sem querer, afinal não sou emo – com o barbeador. Hemácias escorrem e não estancam.    “Rien n'y fait, menace ou prière, L'un parle bien, l'autre se tait:  Et c'est l'autre que je préfère, Il n'a rien dit mais il me plaît.”    Cortei as unhas e, juntas, elas  formaram a imagem de um torii. É bom contar com proteção espiritual até nas unhas! Rs.    MSN: “Tu precisas ser autônomo, entende? Tu tens de ser suficiente para ti mesmo! Tu não podes jogar a responsabilidade da tua felicidade para uma outra pessoa!”    Amanhã eu melhoro.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O seu santo nome

ParkeHarrisson

Veio assim e eu não esperava mais ver. Sentou no banco quase de frente. Sem óculos. Sempre de tez tão branca! Olhou. Olhei. Gelei.  Disfarcei e fingi não olhar, mas foi só virar e re-olhei.

 My God what would the community think,
You are so beautiful, you are so beautiful.
All the things that people do in winter,
They all melt down in summer,
Things I never should say,
On a very hot day *

Sabe essa coisa de frio na barriga que se costuma atribuir à adolescência, mas que não nos deixa nunca, mesmo depois de um pouco mais velhos, especialmente quando há sentimento platônico envolvido? Tudo no objeto desejado é impecável. Pelo menos até o conhecermos de verdade. E a gente se põe lá embaixo. Ser stalker é ruim.

O que estraga é a idealização. O “tudo será perfeito”  é impossível porque a perfeição é imaginação que não consegue prever a espontaneidade dos acontecimentos, isto é, nunca viveremos um ideal, pois não prevemos os acasos do real.**

Entrou no ônibus, pediu desculpas a um passageiro por ter esbarrado, sentou. E eu olhei, admirando... porque com beleza, o que se faz é isso, em primeiro lugar. Todo mundo faz isso. Só não conta em blog.

Na volta pra casa fiquei pensando se é elogio dizer a uma pessoa que ela é bonita. Se ela nasceu daquele jeito e não tem como mudar, então a beleza que ela porventura tem foge ao poder dela, não houve esforço. Do contrário, dizer que alguém é feio também seria um elogio, quando nato. Um elogio talvez seja mais adequado a realizações, a feitos. O que diferencia pode ser a subjetividade da beleza. Eu acho e outros não. Vice-versa. Foi compreensível?

Mudando de assunto:

Escutei Julian’s Eyes, do Brett Anderson, o dia inteiro no mp4. E olha que não consigo manter o repeat  ligado.  Essa música sempre me parece um hino à beleza de alguém a quem se admira. Mesmo que não seja isso, gosto de pensar assim. Veja só:

Softening the winter with his eyes / Sitting in the meadow in disguise / Feeling his way, touching the stone / Watching the day through a telephone / Colors in the carnage of his hair / Lose it in the debris on the stairs / Feeling his way, touching her hand / Making his way to the bandstand / He's in the sky, he's in the tide / He's in the trees and the buzz of the night / Feet in the sand, watching life / Through julian's eyes / Softening the winter with his smile / Sitting in the doorway, counting tiles / Feeling way, touching light / Watching the day through quiet eyes / Elephants and spiders in his hands / Capital letters green and red / Feeling his way, making a start / Watching the day through cut glass / He's in the sky, he's in the grass / He's in the wind and the curve of the stars / Feet in the sand, watching life / Through julian's eyes.

É sempre perigoso atribuir aos outros o poder de ver por nós quando temos autonomia para isso. Mas aqui (na música) o teor poético é maior e não faz questão alguma, no momento, de conselhos terapêuticos. O que se deseja é entregar-se e ver a vida através dos olhos do objeto adorado. Ele está no céu, ele está na maré / Ele está nas árvores e no murmúrio da noite. / Pés na areia, vendo a vida / Pelos dos olhos de Julian”. “Ele está no céu, ele está na relva / Ele está no vento e na curva das estrelas (...). Um altar se ergue. Todos os elementos, distintos ou complementares, contêm o ser idolatrado. Aqui embaixo:  pedra, areia, relva. Lá em cima: vento, céu, estrelas. Julian é um ser híbrido. Sugere mistura de deus e homem, ligação entre céu e terra. Atribuíram-lhe poderes ao olhar, e as coisas se lhe renderam. Ele é o que amansou o inverno com os olhos e o sorriso e também o que suporta sentimentos densos (elephants) ou fugidios (spiders).

E mudando de assunto de novo:

Ontem, na biblioteca da faculdade, eu comecei a ler as Meditações do Descartes. Li a introdução pomposa que ele fez, sempre cuidadoso em agradar a igreja, dizendo que acredita em Deus, e a primeira das 6 meditações. Aliás, pra quem se interessa pela 'realidade fictícia' de Matrix vale a pena ler pelo menos esta parte. (Mas não vale pensar só em Matrix, hein! rs). Imaginar que o que se vê não passa de artifício, de sonho, é meio desesperador.

Mora na filosofia
Pra que rimar amor e dor... ***


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Últimos filmes: A single man, Sangue Negro, Último tango em paris, A fonte da donzela, Fanny e Alexander, O céu de Suely, Taxi Driver, Mundo Cão, Ocean Waves, Europa, Cães de Aluguel, Ondas do Destino.

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* Cat Power - What would the community think
**Viviane Mosé no Café Filosófico sobre o Nietzsche fala disso. Tem vídeo no youtube.
*** Samba do Monsueto regravado pelo Caetano no "Transa" - É o disco que mais tenho escutado ultimamente.

domingo, 15 de agosto de 2010

Comunicado

 Screenshot.

Este blog passou pela peneira da censura* e foi proibida a publicação de qualquer conteúdo explícito de autocomiseração. No more tears, folks!


Filme d'hoje: 4 meses, 3 semanas, 2 dias. Silencioso e letal! Romeno.
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* leia-se autocrítica.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

"Qual é o seu desejo? - Elle m'a dit.

 Salvador Dalí - La tentación de San Antonio


Hoje eu ouvi uma música bonita da Adriana Calcanhotto, bem assim por acaso. Toma:

Não adianta mentir pra mim mesma / Ficar me enganando, tentando dizer / Que nunca na vida, nunca na vida eu gostei de pão doce / Porque por mais que eu queira esconder / A verdade é que eu adorava pão doce / Não podia passar sem pão doce / Bastava ver padaria, que logo eu ia, que logo eu ia / Comprar / Não adianta mentir pra mim mesma / Porque no fundo, porque no fundo eu sei muito bem / Que essa história toda de não comer açúcar / Que essa história toda de não comer pão branco / Que essa história toda de viver de mel e pão integral / Isso tudo só foi começar muito depois / Depois de um tempo em que eu era / Tão completamente ingênua / Tão sem força de vontade / Que as doces delicadezas / De qualquer guloseima / Lânguidas me seduziam / E minha língua sofria / De incontrolável fascínio / Por cremes dourados / E frutas cristalizadas / Feito rubis incrustadas / Nas crostas crocantes dos pães / Mas hoje / Hoje tudo é diferente / Se eu olho pruma padaria, me ponho cismando, chego a duvidar / Como é que pôde um dia / Eu ter entrado tanto lá!... / Porque por mais que eu queira, mas que eu queira / Mentir pra mim mesma / Ficar me enganando, tentando dizer / Que nunca na vida, nunca na vida eu gostei de pão doce / Fazendo um exame detido, sendo sincera, eu tenho que admitir / Que a verdade, meus amigos / (pelo menos no que tange a trigos) / A verdade no duro, doa a quem doer / A verdade é que eu adorava pão doce / Ai ... adorava pão doce / A verdade é que eu adorava pão doce...

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Edit: 28/04/2011 - Acabo de descobrir que a composição é de Carlos Sondroni e que quem gravou primeiro foi a Clara Sondroni em 1987, e só em 1990, no disco Enguiço, a Adriana regravou.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Disto eu não esqueço mais:

O Filho de Saturno - Goya

Mas eu ainda supero, e amadureço - quem sabe!

*Aujourd'hui maman est morte.*

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Lista "Amélieana": Eu gosto de ...

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001) - Jean-Pierre Jeunet

1.Fazer lista dos livros que já li
2.Fazer lista dos livros que quero ler
3.Fazer lista dos livros que tenho
4.Fazer lista dos filmes que já assisti
5.Fazer lista dos filmes que quero assistir
6.Fazer lista dos filmes que tenho
7.Fazer lista de tudo que tenho que levar em uma viagem
8.Descascar mexerica
9.Descascar ovo cozido
10.Ouvir som de cachoeira
11.Ver calígrafos escreverem com nanquim preto no papel branco
12.Ver, de perto, letras sendo formadas no papel, com lápis ou caneta
13.Barulho de folhas de árvore se roçando por causa de vento
14.Gente educada de verdade
15.Abrir encomenda de correio
16.Ler no silêncio da madrugada
17.O silêncio da rua quando grilos não cantam nem cães latem
18.Neblina
19.Vestir roupa de frio
20.Inverno
21.O peso do cobertor
22.Acordar bem cedo e ver o sol nascer
23.Documentários sobre o cosmos
24.Receber carta, ler carta, escrever carta, enviar carta
25.Ser desconhecido num lugar desconhecido
26.Viajar de ônibus, andar de ônibus sozinho, viajar de ônibus em turma, o balanço sonífero de ônibus
27.Assistir aulas e ouvir professores bons falarem e falarem e falarem sem parar
28.Caminhar a pé à noite com fone de ouvido
29.Música bem lenta
30.Ficar sozinho em casa
31.Rasgar plástico de objetos novos: livro, CD, DVD, pacote de folha branca
32.Estourar plástico bolha
33.O primeiro parágrafo da primeira página de um livro, e o último da última.
34.Cães novinhos e engraçados
35.Deixar a parte doce da melancia pra comer por último
36.Ver fotos de estante de livros de gente comum
37.Andar entre estantes de bibliotecas e livrarias
38.Comprar livro novo.
39.Encontrar, por acaso, gente legal na rua
40.Decorar e cantar música com muitas palavras
41.Ver artesanato na televisão, até os mais feios e inúteis
42.Tambores africanos e quase tudo de percussão
43.Assistir harpistas tocarem.
44.Ouvir gente simples falar de coisas simples
45.Ouvir uma certa pessoa cantar, meio desafinado, músicas que eu não conheço, e me contar episódios de séries que eu não assisto
46.Ter momentos de epifania
47.Making off de desenhos de animação
48.Ter crises de riso
49.Ir a parques
50.Grama verde de parques
51.Ver jardins
52.Árvores, árvores, árvores, árvores, árvores
53.Sentir o alívio de 'missão cumprida'
54.Assistir cavalo comer grama
55.Ver um monte de flores reunidas
56.Céu acinzentado.
57.Viciar numa banda.
58.Ver meu pai cortar as unhas com cortador, tesoura ou canivete
59.Sentir dormência na língua por causa de pimenta
60.Sentir jabuticaba e uva estourar dentro da boca pela pressão dos dentes.

Com certeza esqueci de muitas outras coisas.

domingo, 1 de agosto de 2010

Dourando pílula

 Museu do Inhotim - Brumadinho. O jardim foi projetado pelo Burle Marx
(Foto: Vinícius, colega de viagem)


Às vezes parece que a natureza só está por aí no mundo afora pra disfarçar o INFERNO que tudo é e sempre foi. É como se se eu puxasse a lasca de uma casca de árvore tudo desmoronasse e mostrasse o que realmente existe por trás da paisagem idílica. E funciona mesmo: parques, por exemplo, me acalmam e me deixam deslumbrado. Na Segunda, na Terça e na Quinta-feira da semana retrasada eu fui em um (não é o da foto). Sozinho mesmo e vulnerável a tudo eu li, bebi, comi, olhei, observei, pensei, lembrei de pessoas que me fazem tanta falta (T****), dormi na grama, ouvi música, me encantei com os verdes ... 

Lay your head where my heart used to be / Hold the earth above me
Lay down in the green grass / Remember when you loved me

Come closer don't be shy / Think of me as a train goes by
Stand in the shade of me / Things are now made of me
  
God took the stars and he tossed 'em
Can't tell the birds from the blossoms
You'll never be free of me / He'll make a tree from me.*


1. "Não diga nada sobre meus defeitos. Eu não me lembro mais quem me deixou assim".**
2. Dias melhores are about to come, mas o de hoje ...
3. Se eu fosse você, eu leria isto: "Então Aceitamos".
4. Se eu fosse você, eu assistiria a isto: "Para ver as meninas".

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* Green Grass - Tom Waits and Kathleen Waits-Brennan
**  Para ver as meninas - Paulinho da Viola

terça-feira, 6 de julho de 2010

I need a Polaroid

Robert Doisneau - Un Regard Oblique,1948
"It's in your reach... concentrate" *


If you think about everything you haven't done yet in your life, and feel a concrete dismay coming up, like someone who's just been aware about having to work all along the holiday with no right to breaks, and if the weariness is substantial - and so is the desire for valium - you read:




A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

Dorme, meu filho. **



Now, if you feel there must be something wrong about you when you're walking down the streets rubbing hands and arms, now and then, for knowing not where to put them and for being ashamed of yourself, while you're listening to Colleen's "shoot-me-dead"-like instrumental songs on your iPod, then you probably also think about this:



I read a book about the self
Said I should get expensive help
Go fix my head
Create some wealth
Put my neurosis on the shelf ***



Dever de casa pra você que se encaixa: Tirar leite da pedra.

--
*Placebo - Passive Agressive
** Drummond - Consolo na Praia
*** Placebo - Blue American

quarta-feira, 30 de junho de 2010

"Estamos indo de volta pra casa ..." - from facul'

Eu gosto tanto,tanto dessa foto... Willy Ronis - Praga , 1967.

19h30, aproximadamente. Eu bem que podia voltar a pé do centro pra casa. Tomara que esse ônibus chegue logo. Olha quem tá ali... hummm, vai entrar primeiro. Entrou. Minha vez. Roleta. Bancos da fileira esquerda. Vento frio. Vou fechar a janela. Já vai descer... desceu. Que curva gostosa. É bom ficar encostado nessa poltrona. Balanço bom, dá sono. Desço ou não desço aqui? Desci. Vou comprar um chocolate de presente. “Fulana tá aí?” “Não, foi pra faculdade.” “Entrega pra ela por favor?” “Entrego sim, pode deixar.” O senhor tá bem?” “Rapaz, tomei gelado e fiquei com dor de garganta. Já faz 5 dias.” “Remédio, cê tá tomando?” “Tomei, mas antibiótico não. Parei de tomar aquilo.” “É um arraso pro organismo, não é?” “É, e vicia!” “Ah, é, vicia também!” Ele tá olhando pra baixo, é hora de despedir. “Então tá bom, cê entrega pra ela por favor?” “Entrego, entrego sim.” “Ok, boa noite, até mais.” “Boa noite.”. Vou lá naquela lanchonete. Se estiver vazio, sento e como, senão, compro e saio. Vazio! “Essa torta é de frango com catupiry?” “Uhum” “Me dá uma.” Vou sentar longe deles. Ih, mas tem mais aqui.  Vou estragar o lance. “Vai tomar alguma coisa?” “Vvvvv... não”. Vieram dois sachês de ketchup, ótimo. Hmmm, tá gostoso. Esse lugar me lembra a T****, mas o que não me lembra ela?! ... Ai, hora de levantar. “R$3,90”. Já tá nesse preço? “Cobre um ‘ouro branco’” “R$4,90” “É R$1,00???, então não quero”. Pode fazer cara feia que hoje eu não ligo mais pra isso. Absurdo! Ventinho bom aqui do lado de fora. Quero comer mais. Padaria. “3 mini-empadinhas, 3 mini-bolinhos de queijo. Não tem coxinha?” “Não, mas tem bolinho de mandioca... tem pastelzinho de carne.” “Não, obrigado. Só isso mesmo”. “Quer que esquente?” “Quero, mas bem pouco” “Aqui está. Boa noite, obrigada.” “Obrigado você, é educada e atende bem.” “Obrigada” “Nada. Tchau” “Tchau”. “Tem ouro branco?” “Não” “Então quero um Serenata”. “Deu tanto”. “Obrigado” “De nada”. Que delícia essa empadinha. Mas vou provar do bolinho também. O que estiver mais gostoso deixo por último. Hmmm, tá melhor o bolinho. Vou comer a empadinha então. Tomara que eles não me peçam. Empadinha boa!  Hm... bolinho gostoso! Como um iPod com bateria recarregada faz falta. How to disappear completely combina tanto com essa solidão flanante e noturna... e Devendra aqui também cairia tão bem. Vou entrar nessa rua. Não, na de cima. Saco... na próxima acima. Que vontade de 'xixizar', rs. Nossa, moitinha perfeita. Merda de moto. Nunca faço isso, por que hoje? Instinto? Hm, ali... voyeurismo da iminência de ser visto fazendo algo que só se faz de porta fechada. Escorreu pro murro. Tô nervoso. Olha, fiquei excitado! Gostei disso. Preciso repetir algum dia. Ih, essa é a rua da Fulana. Será que vou ser assaltado?  É bem quieto aqui, que paz. Cidade grande talvez seja difícil de andar assim.  Tomara que eu não encontre ninguém. Veja quem tá ali... pergunta rápido, pergunta rápido! “Tem trident?” “Não”. Pare de olhar rápido. Finalmente vi aquela boca de perto.  Perfeita. Minha nossa! Olha os olhos! Academia. Saudade de academia, mas aquelas músicas... Vou entrar nessa farmácia. Chocolate. Drops de Frutella de morango com creme. “Deu tanto “Obrigado “De nada, boa noite”. Não me importa que você me olhe comer na rua. Mocinhas de porta de igreja? Com essas caras? Sei... Noooossa Senhora! ... Ah, não... eu preciso de uma coisa dessas, só pra mim. Quanta carência. Olha a beleza! Vê como senta! Os olhos fixos. Nem me vê. Pele pálida! Pare de olhar! Aqui costumava ser um armazém. Gregor Samsa, que fazes tu esmagado no chão, 'homem'? rs. Foi G.H. que te fez isso, foi? rsrs. Ops, voooolta porque se não comprar fanta vai se arrepender. Será que tem nessa padaria? Ih, só Sukita. Vai esse guaraná pequenininho aqui mesmo. Tomara que esteja geladinho. Hmmm... geladinho. Hmmm, gostoooso. Ahhh não... casa? ... É, casa. Pelo menos tenho, é reconfortante. É seguro. Que bom. Tente agradecer mais vezes. Quanta porcaria comi. Mas me faz tão bem! (As pancadas ela esquecia pois esperando-se um pouco a dor termina por passar; Mas o que doía mais era ser privada da sobremesa de todos os dias: goiabada com queijo, a única paixão na sua vida*).

Filmes dos últimos dias: Juventude; Noivo Neurótico Noiva Nervosa; No limiar da vida; Drawing Restraint 9 (pela terceira vez); Manhattan; Zelig; Bastardos Inglórios; Morangos silvestres. Rebecca (dormi na metade... tenho que terminar).

Amanhã, 1º de julho, aniversário da Marisa Monte. Ela já cantou muito pra mim e me apresentou música brasileira muito boa. Feliz Aniversário. 

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* A Hora da Estrela.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

David Lynch

 David Lynch e seus cabelos de "Tieta nas dunas do agreste".

Eu conheci o David Lynch da pior maneira possível: assistindo o filme Twin Peaks. Não entendi bosta nenhuma e fiquei com aquele gosto de “é só isso?” na boca. Descobri que era um filme baseado num seriado homônimo criado por ele. Depois eu vi O Homem Elefante e, a não ser pelo personagem-aberração, não encontrei a estranheza que todo mundo falava. Nem gostei do filme, pra ser sincero, a não ser pelo tratamento cuidadoso do preto e branco. Isso foi no final de 2008. Essa semana eu resolvi dar uma chance a ele (olha como sou bondoso, rs!) e fiz uma maratona David Lynch. Foram 4 filmes, um por dia. Como eu acho que resumo do enredo torna o filme bobo, só vou contar mesmo as minhas impressões, como no post anterior:

Mulholland Drive (2001) Atuações exageradas e teatrais de propósito. Dicções perfeitas e falas lentas. Uma escuridão palpável (algo que eu perceberia em todos os próximos filmes) como em nenhum outro diretor. Bastante vermelho. Cenários e objetos coloridos. Isso lembra Almodóvar, que usa mais cores contrastantes que Lynch mas pouco claro/escuro. As protagonistas deram um pega animal, rs. Praticamente todo o filme passa e pouco dá pra entender. Somente nos minutos finais a história fica um pouco mais clara. Gostei, mas a primeira impressão foi de um filme simples. Cena marcante: uma mulher cantando com playback em espanhol no teatro (o que lembra Almodóvar outra vez). O Pablo Vilaça tem um site chamado "Cinema em Cena" e faz análises ótimas de vários filmes. Aqui você encontra a de Mulholland (é só clicar em 'críticas').

Blue Velvet (1986) Tem uma historinha melosa, chata e estereotipada de amor que contrasta com a aventura adúltera e masoquista do personagem principal. Comecei a achar que tinha “pegado a coisa” dos filmes: temas comuns (mulholland – ciúme ; blue velvet – traição) tratados a partir da visão e do estilo do diretor. Depois percebi que era muito mais. Assistir a este me fez gostar mais do Mulholland e deixar de achá-lo simples. Cena marcante: close nos insetos da grama.

Lost Highway (1997) A mai-or doi-dei-ra! Muito, muito suspense, e desta vez perturbador. Atuações e elenco melhores do que os filmes anteriores. Trilha sonora com rock (Manson aparece junto com o Twiggy em uma participação rápida como atores de um filme pornográfico. 97 foi a época de ouro da banda, quando começaram a fazer sucesso de verdade). Balthazar Getty novinho,rs. Para mim, dos filmes dele que eu já assisti, o melhor. Cena marcante: sexo em câmera lenta no deserto e uma luz celestial (ou infernal) incidindo sobre atriz.

Inland Empire (2006) Um filme mais para sentir do que para entender. Se eu tinha alguma dúvida da genialidade do David (intimidade), ela terminou em Inland Empire. E se eu achei Lost Highway a maior doideira, é porque eu ainda não tinha assistido este aqui. Foram três horas de filme e eu nem percebi. Muita tensão. A Laura Dern tem a mesma expressão o filme inteiro e isso incomodou um pouco. O começo do filme é até compreensível: uma atriz de Hollywood cuja vida se mistura com a da personagem de um filme que fará. Passados alguns minutos, é difícil saber qual cena é da vida da atriz e qual é a da personagem que ela representa. A câmera de mão deixa a impressão de algo caseiro e amador, cru, tipo Lars von Trier. O diretor ainda encaixou, no filme, uma série muito sinistra de curtas chamada Rabbits (tem no youtube), que mostra 3 pessoas com cabeças de coelho (aparentemente uma família: mãe,pai e filha) dizendo, com vozes em off, falas nonsense. Cronologia completamente embaralhada. Já não tenho certeza se Lost Highway é meu preferido. Cena marcante: a morte da protagonista que logo se revela apenas gravação do filme (metalinguagem).

Lynch não tem nada de sobrenatural. O que ajuda no suspense é a trilha sonora do Angelo Badalamenti, os cenários sombrios e as expressões de medo, de terror, de desespero, e de incompreensão dos personagens que vivem numa constante atmosfera de pesadelo.

Sabe quando você lê ou assiste a uma série e fica triste quando acaba? Então, fiquei assim depois que acabou Inland Empire, porque eu estava inteiro na onda do Lynch. Chapadão! Não vai ser a mesma coisa mas eu ainda posso assistir Wild at Heart, Eraserhead e o seriado Twin Peaks pra completar essa experiência incrível e que eu recomendo a todos que não tenham preguiça de um cinema menos convencional.

Assisti mais 3 filmes: um antes, um durante  e um depois dos de Lynch:

Sede das Paixões (1949) Bergman. Se comparado aos outros dele, é bem fraco. Mas continua sendo melhor do que muito filme do mesmo gênero por aí. Mulheres histéricas, mulheres traídas e, como sempre, uma relação “sáfica”, que ele adora colocar nos filmes.

My Fair Lady (1964) Aquela abertura serviu de inspiração pra Dancer in the Dark, eu aposto, ainda mais por serem, ambos, musicais. É longo, quase 3 horas, como The Sound of Music (Noviça Rebelde). Eu tenho uma preguiça colossal de assistir musicais, mas sempre gosto quando vejo. E esse não foi diferente. Audrey Hepburn é mesmo muito bonita. Não sei se era propósito do filme ou se na época ainda era assim, mas a mulher não passava de um objeto que os homens exibiam em festas. Gostei muito.

Moulin Rouge (2001) Gostei do clímax, do desfecho e de uma música (The show must go on). Mas só. A primeira metade do filme é muita macaquice pra mim e uma poluição visual (é claro, é cabaré). Ele é bonito, ela é muito,muito bonita, mas pra mim os dois não têm nada a ver um com o outro. Não rolou química no par. Uma coisa muito legal: as intertextualidades. Mas... músicas chatas, vozes chatas e sem potência. Talvez eu esteja sendo um pouco duro demais, e eu pretendo assistir de novo quando não estiver chapado por Inland Empire. Eu não sei se posso comparar, mas gostei muito mais de Chicago.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O balanço do Corpo de Cristo

 Screenshot de Hiroshima Mon Amour

Neste feriado de Corpus Christi:

True Blood  Últimos e chatos episódios da segunda temporada, que apesar disso foi boa. Acho que não precisava de zumbi. Ficou tão feio. E poderia ter aparecido um Baphomet mais caracterizado, pelo menos, com asas, pernas de fauno e tudo que tem direito. Mas por que sempre colocar outros seres sobrenaturais quando se fala em vampiro como se todos fossem farinha do mesmo saco?

Brothers and Sisters – Quase a 1ª temporada inteira. Eu acho roteiristas de séries tão criativos!  Gostaria de ser inteligente como vários personagens criados por eles, mas ser educado em essência, porque a maioria é frígida e ácida demais. Quanta gente bonita. Olha a Rachel Griffiths ali! (Brenda - Six Feet Under).Família inteira bonita. E tudo bem triste, mesmo quando estão em paz. São aflições concentradas em 40 minutos de episódio.

Irmão urso – Gostoso de assistir, leve, bem desenhado, engraçado aqui e ali, empatia como palavra-chave. Mas rasinho feito água de batata, história pouco densa e que servia pra qualquer outro ambiente e animal,  não só para uma cultura ancestral e tribal como a que serviu de background. Desses novos desenhos da Disney, gosto de Mulan (vulgo ‘mulambo’,rs), talvez pelas cores, mas prefiro os antigos mesmo, em technicolor.

Sempre ao seu lado
– Estava dando sopa aqui em casa e eu pensei: vou treinar listening. Coloquei sem legenda. Um cachorro que vem do Japão, se perde na estação e é encontrado por um professor. Os dois se tornam companheiros e o cão se mostra leal... (paciência...)... queria ver se faria sucesso sem o Richard Gere. De qualquer forma, foi gostoso assistir. Não tem que pensar em nada, só se entreter.

Preciosa – Feia, obesa, negra, pobre, triste, 17 anos e grávida do próprio pai pela 2ª vez.  (Cristiane F.  rs). Apanha da mãe, que não faz nada e vive de dinheiro do governo. Bom pra valorizar o que se tem. Gostei muito do filme. Me amarro em ambiente de escola. Mariah Carrey como assistente social e Lenny Kravitz como enfermeiro? What the fuck?

Hiroshima mon amour – Tem um programa no canal Futura destinado a filmes antigos. Um dia passou um chamado "Mon oncle d"Amérique" e eu gostei tanto que quis assistir outros do mesmo diretor, o Alan Resnais. Um amigo me indicou "Hiroshima..." . Os diálogos parecem prosa poética. Acho que eles sobreviveriam até mesmo sem as cenas do filme (que são tão bonitas também!). Foram escritos pela Marguerite Duras. Depois dizem que eu não gosto de romance. Assim eu gosto! E preto e branco é um descanso pr'as vistas, não é?

Madadayo
– 2 horas e 15 minutos de vida perdidos. Precisava daquele drama todo por conta de um gato ? (Se fosse o de cheshire pelo menos). Um curta metragem era o suficiente. Que arrependimento! Não espanta eu ter tido indigestão e dor de cabeça pelo resto da noite.,rs Sa-ca-na-gem, hein, Tio Kurosawa?!!! Nem "Rapsódia" foi tão vazio, e nem "Rashomon" foi tão chato, e nem "Os Sete Samurais" foi tão longo. E "Sonhos" é mesmo um sonho de tão bonito!

The Matrix – Tinha assistido duas vezes na televisão, mas era dublado, tinha intervalos, não vi até o final e nem com atenção. Agora foi pra valer, entendi, gostei e tudo. Estudei pra um concurso que exigia conteúdo de informática (hardware, software, segurança, etc) e isso foi bem providencial pra fazer outra interpretação. Que filme genial. Filosofia, literatura, bíblia, tecnologia, contemporaneidade. Não importo de ter visto tanto tempo depois. Me veio num momento oportuno.

The Matrix Reloaded – Gostei muitíssimo também e tive que rever a parte do arquiteto 3 vezes pra entender. Super bem escrito. Melhores cenas de combate da trilogia. Um quê de Tarantino motherfucker pelo exagero mangá. Bem legal.

The Matrix Revolutions – Um erro. Um exagero. Mistura de Dragon Ball Z com Power Rangers e Independence Day.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Pedindo um Hambúrguer

 Sophie Calle - Douleur Exquise

Acaba de me acontecer uma situação engraçada, tanto que não resisti e vim contar. Liguei para uma lanchonete e pedi um hambúrguer. Uma mulher me antendeu:

Ela: Fulano Lanches, boa noite! 
Eu: Boa noite, eu quero um X-bacon.
Ela: X-bacon, que você quer dizer, é bacon com...
Eu: Queijo.
Ela: Mais o que, querido?
Eu: Uma fanta laranja em lata.
Ela: Ok, aguarde só um instante que eu vou somar pra você, paixão.
Eu: Paixão? kkkkkkkkkkkkk.
Ela: Haha, desculpe, sempre chamo todo mundo de paixão.
Eu: Ok,rs.
Ela: Deu R$10,40.
Eu: Sério? Tá mais caro que da outra vez. Quanto é o lanche?
Ela: R$6,80.
Eu: Bem, isso tá certo. E a entrega?
Ela: R$2,00.
Eu: Ah, é isto. Me cobram só R$1,00 porque meu bairro é perto.
Ela: Hmm, me desculpa, é que é a segunda vez que eu estou atendendo, sou nova aqui. Então vai dar R$9,40.
Eu: Ok, quero troco pra R$10,00.
Ela: Tudo bem. Qual o seu nome e endereço?
Eu: Fulano de tal, rua tal, número tal, bairro tal.
Ela: Muito obrigada, boa noite.
Eu: Boa noite, paixão, kkkkkkkkkkkk.
Ela: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Hoje eu mal estudei porque...


Parte I - O Silêncio Pesa ¹

Eugênio Recuenco


Se me fosse concedido um desejo hoje, então eu pediria para ficar sem voz, expressão facial, dedos para digitar, ou qualquer ferramenta inerente a mim que provocasse algum tipo de reação nas pessoas. Acho que elas agradeceriam e eu me sentiria mais leve. Pisar em casca de ovos é terrível - assim como não medir o que se fala.

O cérebro devia ter cotas diárias para controlar a contingência de sentimentos. Ex.: "Você só pode se arrepender de 2 coisas por dia, Senhor X". Isso me ajudaria a remoer menos o passado.

Até que hoje não estou com vontade de levantar o dedo do meio, nem pedir desculpas a ninguém. Só queria mesmo fazer uma coisa de cada vez, me concentrar bem, dar atenção e carinho às pessoas, mas também selecioná-las. 50 - 50 : metade de mim fala mais do que deve; metade foi procurar amigos como quem faz compras no supermercado de estômago vazio e pega tudo que vê pela frente. A conta fica maior que o orçamento e a burocracia para devolução é um hell.



Parte II - A Alma e a Matéria ² 

Francis Bacon - Auto-retrato (1971)

Aborto feito feto evacuado. Gozado. Escarrado. Cuspido. Assim: imundo. Sujismundo. Menstrumijado. Coberto de grossa camada de pegajoso sebo envolvendo o corpo – essa porção própria de mundo.

Alma sorvida com virilidade. Alma regurgitada e ejaculada em forma de líquido gástrico. Concretizada em gosma coalhada e azeda. Pó antropomorfizado com sentimento de retorno ao pó e às substâncias primárias inconscientes de si.

Lista de supermercado:
seção de frutos proibidos
colhidos da árvore da vida:
o pau, a buceta,
o cu, a teta.

Penetra a carne morta e a devora. Sente o sabor do sumo do  qual o corpo impregnado está. Jatos de sêmen perolado, sangue escarlate: leite rosado. Nauseabundo. Prazer de pequenas mortes. Éden e Hades portáteis – compactuantes – em três ou quatro segundos do pecado mais sagrado banhado por chuva dourada torrencial. Il pleut³. Por chuva dourada torrencial. Il pleut. Chuva ... dourada ... tor ... ren... ci... al...   depois chora.


“E eis que depois de uma tarde de ‘quem sou eu’ e de acordar à uma da madrugada ainda em desespero – eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. E você é você. É lindo, é vasto, vai durar. Eu sei mais ou menos o que eu vou fazer em seguida, mas por enquanto, olha pra mim e me ama. Não. Tu olhas para ti e te amas. É o que está certo."  4

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1 Tradução de "Le silence pèse", verso do poema "Petit Chat" - Manuel Bandeira.
2 Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown (mas não faz parte de Tribalistas)
3 Título de um poema de Apollinaire.
4 Creditar um texto assim é redundência, não é?